segunda-feira, 24 de maio de 2010

Ética e ciência


J. Craig Venter anunciou semana passada (21/05) a primeira célula sintética. O anúncio no New York Times, em inglês, está aqui.

É a realização daquilo que o pioneiro da genética já havia antecipado em seu livro Life Decoded. Partes de DNA sintéticos foram conectados na maior cadeia artificial de DNA já criada pelo homem, um anel com aproximadamente 1 milhão de peças. O anel foi injetado células hospedeiras e se multiplicou. (Clique na imagem acima para ampliá-la).

O presidente Barack Obama solicitou à comissão de bioética da Casa Branca um estudo completo dos temas envolvidos na biologia sintética para os próximos seis meses. Ele disse que o novo desenvolvimento levantou "preocupações reais".

A Biologia está diante de questões éticas, da mais alta gravidade, como a Física esteve há 70 anos. Era a época do desenvolvimento da Bomba Atômica. Einstein, um dos físicos mais pacifistas da época, escreve uma série de cartas ao então Presidente Roosevelt, alertando-o para a necessidade de desenvolver a Bomba Atômica nos EUA. Elas podem ser lidas aqui.

Na primeira carta, dia 2 de agosto de 1939, ele afirma estar convencido de que a reação em cadeia de grandes quantidades de urânio levaria a produção de uma bomba atômica "no futuro próximo", e propõe a instalação do que viria a ser o Projeto Manhattan, que desenvolveu a Bomba Atômica. A principal razão que moveu Einstein parece ter sido o acompanhamento do interesse da Alemanha Nazista pelas jazidas de Urânio da Tchecoslováquia, que foi invadida logo no primeiro ano da Guerra. Com a morte de Roosevelt em 12 de abril de 1945, parece que a linha dura do exército americano acabou não ouvindo os apelos para impedir o bombardeio de agosto de 1945 sobre Hiroshima e Nagasaki no Japão.

A situação da Biologia hoje é muito mais complexa.

Primeiramente, uma guerra bacteriológica hoje ou num futuro próximo pode causar um dano ecológico de dimensões incalculáveis. Em segundo lugar, ao contrário das pesquisas nucleares, as pesquisas biológicas estão sendo conduzidas pela iniciativa privada, sem nenhum controle da sociedade. Isto se deve ao baixo custo da infraestrutura necessária. A pulverização da biogenética torna o seu controle social muito mais vulnerável. A possibilidade de proliferação muito mais crítica.

É urgente a necessidade de definições éticas para a ciência hoje, mais do que em qualquer tempo na história.

3 comentários:

Willian disse...

Interessantíssimo! É tempo de discussões mto profundas em qualquer aspecto e sobre qualquer assunto; é tempo de mudanças no mundo ou o caos. A questão ambiental é um exemplo disso: ou se muda o trato e o pensamento acerca do meio ambiente e da sustentabilidade ou transformações drásticas, dramáticas e irreversíveis virão em breve (ou já estão acontecendo). Penso a ciência e sobre a ciência da mesma forma! Bem como acredito que este tipo de feito tem mto mais a contribuir do que destruir com a humanidade!

Rafael Bento da Silva Soares disse...

Novos problemas éticos? Acho que não. Só um sôpro a mais nas já turbulentas questões levantadas pela engenharia genética há pelo menos 30 anos. Veja mais aqui: http://scienceblogs.com.br/rnam/2010/05/essa_nossa_vidinha_sintetica.php

Ulisses Leitão disse...

Rafael, a questão não é nova, mas ainda não respondida e sem perspectiva de solução. Obrigado pela indicação do link.