domingo, 27 de junho de 2010

Professores e avaliação

Fim de semestre. Notas finais. A Universidade consagrou o rito de passagem mais longo de todas as culturas: é preciso passar por este momento umas 50 a 60 vezes para receber o diploma universitário.

Talvez possam me acusar de positivista, mas eu acredito no processo avaliativo tradicional. O principal argumento é a minha experiência de mais de 20 anos como professor universitário: os alunos saem muito diferente do que entraram na Universidade, portanto, a Universidade faz uma diferença enorme.

Semestre passado uma aluna me chamou a atenção.
Menina simples, de origem humilde. Apesar dos esforços visíveis, foi reprovada na primeira vez que cursou minha disciplina de Eletromagnetismo. Confesso que cheguei a ficar assustado com a incoerência de certos argumentos nas provas.
Notei uma melhoria enorme na segunda vez que ela cursou a disciplina, fiquei surpreso e lhe perguntei a razão. A resposta não poderia ser mais esclarecedora: "Agora eu estou estudando, professor."

Mas não somente os alunos precisam ser avaliados. Em fase ainda experimental, a UFLA avalia disciplinas e professores semestralmente. Defendo que se implemente uma análise de dados que leve em consideração uma correlação entre a avaliação do professor e a distribuição de notas dos alunos.




Nos gráficos acima representamos os histogramas hipotéticos de avaliação dos alunos na disciplina (em azul) e da avaliação do professor pelos alunos (em vermelho). Quanto mais deslocado para a direita, mas altas são as notas, mais positiva é a avaliação.

No caso a) temos uma avaliação negativa do professor e dos alunos. Este caso tem pouco significado. Pode ser que os alunos foram mal por que o professor é ruim. Mas pode ser apenas um ato de vingança. A avaliação apenas destes dois aspectos é inconclusiva neste caso.

O caso b) aparentemente seria o ideal. Boa avaliação do professor e dos alunos. Todos satisfeitos e felizes. A Universidade cumprindo seu papel de ensinar, os alunos o de aprender. Mas, me preocupa a possibilidade desta situação retratar um Pacto de Mediocridade: o professor dando nota alta para não se comprometer, os alunos sabendo que não aprenderam, mas ficam satisfeitos pelo descanso das férias garantidas.

Mais esclarecedores são os casos c) e d).

Se a avaliação do professor pelos alunos é positiva, mesmo quando eles próprios não obtiveram boa nota, caso c), temos duas consequências óbvias:
1) O professor deve ser um bom professor,
2) O currículo deve ser revisto para adequar melhor à condição da formação dos alunos. Possivelmente a ementa prevê pré-requisitos que os alunos não possuem.

A face mais óbvia deste drama tem sido o aleijão curricular de vários cursos de Engenharia e Computação que querem retirar Física e Matemática do currículo e, em geral, comprometem a formação dos alunos.

Finalmente, se a avaliação do professor é negativa, mesmo quando os alunos foram bem avaliados, caso d), aí temos um caso, talvez insolúvel, de má formação do professor.

A expansão desenfreada da Universidade Particular no governo FHC e da Universidade Pública no governo Lula pode estar nos levando a esta situação, o que pode comprometer a qualidade do ensino superior no País pelos próximos 30 anos.

3 comentários:

simão disse...

Excelente material de trabalho. Permaneço na linha de defender o ensino público com qualidade e, principalmente, o ensino de profissionalização. Parabéns pelo trabalho, que conheci ao seguir a Miriam Leitão no twitter.

Abel disse...

Muito bem colocado seu ponto de vista. O melhor ainda seria se as instituições mantivessem seus esforços em avaliar melhor tais dados para poder montar planos de ação encima disto. Parabéns

Frederico Bicalho disse...

Um excelente estudo que poderia se extender para uma pesquisa real.